sábado, 24 de dezembro de 2011

COISAS QUE NUNCA DISSEMOS

Drummond já questionava: "Que pode uma criatura senão,/ entre criaturas, amar?/ amar e esquecer,/ amar e malamar,/ amar, desamar, amar?/ sempre, e até de olhos vidrados amar?"

Mas quanto tempo é necessário para uma pessoa "desamar": oito meses, talvez dois anos? O que fazer quando quinze anos  de desencontros não são suficientes para esquecer um grande (e verdadeiro?) amor.

E que tal acrescentarmos aí o fracasso profissional ou a sua insatisfação? Peter e Amanda podem desenrolar essa situação para você...



Coisas que nunca dissemos
Fiona Goble

Ele a viu por trás, e  a reconheceu imediatamente. Caminhou mais rápido e já estava à frente dela quando se virou, perguntando a si mesmo se devia sorrir. Não parecia fazer quinze anos.
          Inicialmente, ela não o viu, estava olhando a vitrine de uma loja. Então ele tocou na manga da jaqueta dela.
           - Oi, Amanda. – ele disse gentilmente. Sabia que não era um engano. Não desta vez! Durante muito tempo, ele pensava que a tinha visto – no ponto de ônibus, nos bares, nas festas.
            - Peter! – quando Amanda disse o seu nome, o coração dela bateu mais depressa e  ela se lembrou, então, do primeiro verão que passaram juntos. Estavam deitados perto do rio Cliveden. Tinham dezoito anos.
            Peter descansava sua cabeça no ventre dela. Enquanto passava seus dedos pela grama, disse a Amanda que não poderia  viver sem ela.
            - Estou surpreso por você me reconhecer. – disse ele enquanto colocava as mãos nos bolsos do casaco.
            - Mesmo? – Amanda sorriu. É bem verdade, que ela andava pensando muito nele nos últimos dias. – Você não  voltou a morar aqui, voltou?
            Certamente que não, ela pensou. Amanda sabia que ele abominava aquele lugar. Já com dezoito anos, Peter não podia esperar para sair dali e viajar pelo mundo.
            - Graças a Deus, não. – disse ele. – Ainda moro em Londres.
            Amanda  olhava-o. Parecia o mesmo. Peter não começara a ficar careca como a maioria dos homens que ela conhecia, mas seus ombros estavam mais largos e seu rosto ligeiramente mais arredondado.
            - Eu voltei para o enterro... – continuou ele. – ... do meu pai. Infarto. Aconteceu, assim, de repente.
            -  Sinto muito. – ela disse, embora não sentisse  realmente. Ela se lembrava de quando Peter falava sobre as surras que  recebia frequentemente do pai até chegar aos dezesseis anos, porque, depois, Peter ficou mais alto qeu o pai.
            - Obrigado. – disse ele a Amanda, apesar de não sentir nada pela morte de seu pai, apenas alívio por sua mãe. Ela ficaria mais feliz sem o marido. A mãe de Peter tentava criar coragem para deixa-lo há anos.
            - Acho que você não está morando aqui de novo, não é? - continuou ele.
            _ Estou morando em Londres também. – disse ela, colocando seu cabelo atrás da orelha, de uma maneira que ele não  podia ter esquecido nunca. – Só voltei para o casamento da minha irmã amanhã.
            - Que legal. – disse Peter, embora  só se lembrasse que a irmã de Amanda era bastante gorda e chata aos doze anos.
- Eh. – Amanda concordou, sentindo que sua irmã mais nova só usava seu casamento como holofote para a série de outros relacionamentos fracassados que tivera.
 - E seus pais? – ele perguntou. – Estão bem?
-  Muito bem. – Amanda lembrava-se de como  Peter sempre invejou a posição de classe média dos pais dela, pois comiam comida estrangeira e nas férias, iam a lugares exóticos.
- Você está com pressa? – Peter perguntou.
- Não. Só estava passando o tempo, mesmo.
-  Pensei que poderíamos passar juntos. Vamos tomar um café?
 Eles, então, foram ao Gaby’s, um pequeno Café subindo a rua. Ficaram  durante horas naquele lugar quando tiveram o primeiro encontro, rindo, de mãos dadas debaixo da mesa e conversando sobre seus planos para o futuro com vários copos de café.
- E então, Peter, você se tornou um correspondente internacional? – Amanda perguntou, lembrando-se dos lugares que eles sonhavam visitar juntos – Índia, Marrocos e Austrália.
_Não, exatamente. Sou advogado, acredite ou não.
            Ela olhava para as roupas dele e podia acreditar nisso. Estavam longe das camisas de segunda-mão e do jeans que ele usava quando estudava.
            _ E você gosta? – Amanda perguntou.
            _ Gosto. – ele mentiu. – Mas e você? É uma famosa artista internacional? – ele sempre adorou as pintura que ela fazia. Peter lembrou- se de um autorretrato que ela fizera e lhe dera  quando ele completou vinte anos. Ele ainda o tinha.
            _ Bem... não. – ela tentou rir. Amanda se perguntava se Peter ainda teria o autorretrato dela. Já havia parado de pintar há muito tempo.
            Peter olhava o cabelo se Amanda, cascata preta e indisciplinada pelos seus ombros. Ele já podia ver  um pouco de fios brancos, mas ela continuava muito bonita.
             - Então, o que você tem feito, Amanda?
             - Nada de mais. Tento um pouco de cada coisa. – ela  não queria lhe contar sobre os sucessivos trabalhos temporários que ela espera  se tornarem permanentes algum dia, mas isso nunca acontecia.
            - Então você não está pintando mais?
            _ Só portas e paredes. – disse ela, brincando enquanto ele riu gentilmente. Amanda  lembro-se das noites que eles passaram num conjugado que alugaram juntos no último ano da escola. Ele ficou sentado por horas apenas observando Amanda pintar, desenho por desenho.
            - E  você mora onde em Londres? – ela perguntou.
            - No norte.
            Era um flat de três quartos em Hampstead. Agradável na sua forma ampla e vazia. Peter pensou em todas aquelas noites em que desejava que alguém  fosse para lá.
            - E você? – ele perguntou depois de um silêncio.
            - Moro no sul. É bom. Aluguei um quarto. – Amanda  lembrou-se do cheiro do quarto com a umidade nas paredes. O imóvel ficava numa parte não muito requisitada de Clapham. – Mas estou querendo comprar um apartamento. É o motivo por que voltei. Eu queria resolver isso.
             Amanda suspirou. Pensava nas cartas de Peter que ela encontrou no seu velho quarto e que lera ainda ontem.
            - Oh, Peter, eu não sei por que fui embora naquele dia. – Amanda disse finalmente. Ele levantou o olhar para ela.
            - Tudo bem. – disse Peter  lembrando-se de que,  à noite, ela não voltara para o conjugado.
            - Éramos jovens. Os jovens fazem coisas assim o tempo todo. – Peter  acrescentou, sabendo que isso não era verdade. Que ele não merecia ter sido tratado daquela maneira. Lembrou-se de todas as cartas que escreveria para Amanda e que foram  enviadas à casa dos pais dela. No início, escrevia todos os dias, mendigando respostas ou pelo menos um telefonema. Ele já sabia que nunca encontraria alguém como ela.

- Acho que tem razão. -  ela tentou esconder seu desapontamento e a dor pela qual Peter parecia não se lamentar. - Bom, eu tenho que ir. – disse Amanda

            
- Já? Pensei que você não estivesse com pressa.
            - Não estou. -  disse piscando para reter as lágrimas. – Mas preciso ajudar minha  mãe com o casamento.     _
          - Entendo. – disse Peter, embora ele não entendesse. Certamente os pais dela entenderiam?
            - Posso te dar meu telefone?- perguntou ele. - Talvez possamos nos encontrar depois.
            - Talvez. – disse Amanda.
            Peter escreveu seu telefone no verso da conta do café e Amanda guardou-o num bolso da  sua bolsa.
            - Obrigada. Adeus, Peter.
            - Adeus, Amanda.
            Anos depois, frequentemente, ela ainda verificava aquele bolso para ter certeza de que o número dele estava lá.

traduzido por Cinthia Diefesse
Título orignal: Things we never said 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

Sapatinho de cristal quebrado





Guimarães Rosa escreveu "Fita Verde no Cabelo", Drummond, "História Malcontada", Chico Buarque de Holanda, "Chapeuzinho Amarelo" e eu lhes apresento...



                             Sapatinho de cristal quebrado

              Era uma vez um grande centro urbano onde moravam centenas de milhares de pessoas. Nessa cidade, morava também Cinderela, bela jovem que vivia com seu pai e sua madrasta numa modesta casa.
                  Cinderela estudava pela manhã, trabalhava à tarde e foi no emprego que se apaixonou por Lobão. Iniciavam  um romance e a jovem sentia-se cada vez mais apaixonada, embora sua família relutasse em aceitar  esse relacionamento.
                 Sua madrasta dizia, por exemplo, que “Lobão” não é nome de príncipe e sim, de marginal. Além disso, era feio! Tinha aqueles olhos e aquela boca grandes que davam medo... Cinderela, contudo, não se importava. Estava feliz... mas por pouco tempo.
                 Lobão não ia trabalhar há quase uma semana e não atendia às ligações da jovem que ficava preocupada.
             Um dia, Cinderela ouviu uma conversa  entre dois colegas de trabalho por meio da qual soube que Lobão pedira demissão. Ela ficou surpresa e seus olhos inundaram-se de lágrimas. Saiu do trabalho no meio do expediente  para ir ao apartamento de  Lobão.
              Lá, tocava a campainha, desesperadamente, mas ninguém abria a porta. Uma senhora que saía do elevador com sacolas de supermercado, aproximou-se de Cinderela e perguntou-lhe:
                 _ Está procurando Lobão, minha filha?
                 _ Sim! – disse a jovem esboçando um sorriso  - A senhora sabe onde ele está?
              _Sei sim! Está morando no campo. Foi pra lá depois que se casou com uma tal de Chapeu-zinho  Vermelho. Sabe, eles tinham um relacionamento um pouco conflituoso... A menina até foi embora, mas voltou há poucos meses... Se casaram, assim, de repente e agora moram na casa da falecida avó da menina.
                 Cinderela perguntou muito abatida, como a senhora sabia daquilo e ela lhe respondeu:
                 _ Chapeuzinho era muito amiga da minha filha e, lá em casa, ela falava sobre Lobão.
                 Depois, despediu-se de Cinderela que ficou sozinha no corredor do prédio chorando...

           Isso é o que acontece quando se apaixona por um personagem que não faz parte da sua história. Quebrou-se o sapatinho de cristal...